[ENTREVISTA] NME: UNIDOS EM SONHOS ELÉTRICOS

Muse recentemente deu uma entrevista à revista NME onde falaram sobre Simulation Theory, política, e como a união faz a força. Vem com a gente!

 

Se a vida é um videogame, o Muse está ganhando. Um gigante do rock britânico e headliner de festivais, acaba de lançar um álbum, Simulation Theory – seu oitavo – que consolida sua reputação de Beatles do Black Mirror. Mas enquanto óculos de realidade virtual, visões da singularidade e preocupações com um governo autocrático são distrações dignas, é a amizade entre os três membros que mantém a banda unida, descobre Tom Connick.

 

          Você sabe que “chegou lá” como uma banda quando cada membro se desloca para um compromisso, separadamente, em uma Mercedes com vidro escuro. E é assim que, ao longo de uma hora em um estúdio de fotografia no norte de Londres, três delas aparecem e cospem um integrante do Muse, cada um vestido com roupas que seria justo chamar de “ostensivas”.

 

 

          O baterista Dom Howard está usando um casaco de pele com estampa de zebra; o baixista Chris Wolstenholme, uma camisa polo branca apertada com um modelo de olho de desenho animado. O membro final, o enigmático frontman, guitarrista e porta-voz político Matt Bellamy – está usando um par de óculos espelhados espaciais que cobrem metade de seu rosto, e uma jaqueta que lembra um derramamento de óleo em uma fábrica de zíperes. É como se a ala de descontos de uma loja de departamentos ganhasse vida.

          Mas não se deixe enganar pelas viagens individuais – ao longo de algumas horas em sua companhia, o trio, unido desde a adolescência, revela-se como o mais firme dos grupos de amigos.

 

“Tantas bandas que foram nossos colegas nos anos 2000 não estão mais por aí, simplesmente porque não conseguiram ficar juntas”, diz Matt. “Eu não acho que seja porque a música deles sofreu de alguma forma. A razão pela qual alguns deles não estão mais por aí é que houve uma discussão dentro do grupo e alguém saiu, ou há algum problema de ego. Conforme o tempo passa mais e mais, eu acho que ficar juntos é a única coisa”.

 

          Muse ocupa um lugar estranho em 2018. Para alguns, eles são o Nickelback sob efeito de LSD – uma praga que lota os estádios dos excessos mais pomposos do rock moderno. Para outros, eles são essenciais – a última vanguarda da música de guitarra adequada e digna de título. Como o popular sushi (ou se ama ou se odeia), não há meio termo no fandom do Muse.

          É improvável que Simulation Theory, seu oitavo álbum, influencie qualquer uma das partes. É Muse no momento mais Muse – uma banda explosiva que marcha com exagero pelo excesso de electro-rock, que inclui tudo, desde crescentes trilhas sonoras criadas para Hollywood (Something Human, Get Up And Fight) até excêntrico electro-metal que não soaria destoante na era do nu-metal (Break It To Me). É completamente não convencional, uma mudança de forma percorrendo tudo o que faz o Muse tão… Muse.

          Bastante revigorado, o trio está plenamente consciente de sua reputação. Bellamy ri quando eu menciono sua propensão, às vezes pesada, para o sentimento antitecnológico, antigoverno, quando ele diz que Simulation Theory é “mais positivo” quanto a esses assuntos.

          O baterista Dom Howard, enquanto isso, revira os olhos e murmura piadas quando Bellamy coloca seus óculos espelhados para a sessão de fotos. É um nível silencioso de autoconsciência que suaviza as extremidades dos momentos mais impenetráveis de Simulation Theory – do grave e distorcido slap bass de Break It To Me até o redemoinho Prince-encontra-Prodigy de Propaganda.

 

          Quando o trabalho começou nesse disco em 2016, Bellamy prometeu “algo um pouco mais simplificado”, em uma entrevista da Absolute Radio. Os três riem da ideia. “Nós jogamos essa ideia pra fora do barco”, sorri Dom. “Eu acho que se tivéssemos simplificado a produção, poderíamos ter um problema semelhante ao que tivemos com o [álbum de 2009] The Resistance”, diz ele, explicando que o CD de quase dez anos atrás foi a primeira vez que eles pensaram em reduzir as coisas, apenas para acabar mais Muse do que nunca. “Descobrimos que só queremos pegar um sintetizador e fazer –” ele faz uma pausa, fingindo tocar um teclado, e emite um barulho como uma ovelha viva sendo colocada no liquidificador.

          Essa ideia de simplificar foi algo que surgiu de suas primeiras sessões. Something Human foi a primeira faixa ficar pronta, uma obra relativamente acústica, e um destaque sobre a natureza de fazer turnês e sentir saudades de casa. A partir daí, porém, eles começaram, bem, a brincar com ela. “Do ponto de vista da escrita, começou assim”, diz Bellamy, “mas eu entro no estúdio e acho que não é muito emocionante – eu só quero fazer um monte de sons estranhos e outras coisas”.

          “Eu acho que é uma reação inicial por estar na estrada por um longo tempo, e tocar grandes shows de rock que foram muito pesados e envolveram muita tecnologia”, admite Dom. “É como, ‘eu só quero cantar algumas músicas de Simon e Garfunkel com um violão’.”

 

          Eles estão procurando por “algo novo” em cada disco, diz Bellamy sobre a abordagem de esmagamento de gêneros que eventualmente escolheram – um que dá a Simulation Theory a sensação de um trem desgovernado, às vezes, enquanto ele ruge pelo drum ‘n’ bass, synth-pop e inúmeros gêneros no meio. “Há um pouco de invenção acontecendo com este álbum – abraçando a música contemporânea em vez de tentar fugir dela”, ele continua: “Você pode ouvir isso em músicas como Propaganda, onde trabalhamos com o [superprodutor pop] Timbaland; músicas como Get Up And Fight, com o [compositor pop sueco] Shellback; e as coisas que fazemos com [o colaborador de longa data] Rich Costey como Break It To Me.”

          É uma abordagem que levou ao álbum mais baseado em sintetizadores do Muse – algo que poderia fazer chorar os fãs antigos que foram atraídos pela utilização de guitarras pesadas – mas que o próprio Bellamy compara com Supermassive Black Hole e Bliss; uma fusão de eletrônica e uma tradição mais guitarra-baixo-bateria; “Algo que estava entre o orgânico e o sintético”, como diz Bellamy.

          “Eu não chamaria de experimental, necessariamente”, ele dá de ombros. “Para nós, provavelmente foi, mas na esfera da música éramos apenas nós combinando partes do que aprendemos ao longo dos anos por ser uma banda de rock mais tradicional, e encontrando maneiras de misturar isso com a música contemporânea”.

 

Será que eles conseguiriam simplificar, como prometido inúmeras vezes agora? “Sempre há o álbum que podemos virar e gravar quando estivermos com 60 anos e não tivermos mais energia”, acrescenta Chris.

 

          Em alguns aspectos, Simulation Theory é uma reformulação do Muse de antes. Notavelmente, a banda se refere uma e outra vez a um sentimento de positividade e fé na tecnologia – uma surpresa de uma banda que recentemente entoou: “Minha mãe, morta por drones / Minha irmã e irmão, mortos por drones” (No “Drones” de 2015, naturalmente). Eles se tornaram um tipo de Banksy musical nesse aspecto – o Black Mirror do rock de estádio.

          Simulation Theory, no entanto, de certa forma muda esse foco. O título do álbum em si [Teoria da Simulação] é um aceno para a hipótese de que toda a vida na Terra é de fato uma simulação. Parece bem Matrix. Mas, como Bellamy explica, isso não significa um aspecto negativo.

          “Às vezes, em álbuns como ‘Drones’, eu expresso um pouco de… ansiedade sobre como a tecnologia afeta nossas vidas”, admite Matt. “Crescendo como uma banda de rock tradicional na era do programador e do codificador, e todo esse tipo de coisa, houve um pouco de resistência em relação a isso”.

          Foi uma visão que o esgotou com o passar do tempo. “Estar em turnê com Drones por um bom tempo, com essa mensagem sombria, tocando músicas como Globalist todas as noites – quando você termina uma turnê como essa, você quer fazer algo diferente; algo um pouco mais colorido; um pouco menos ansioso e dominado pela negatividade. A música “Dark Side” é quase como eu cantando sobre o desejo de fugir daqueles pensamentos sombrios e ansiedades”.

 

 

          Foi a descoberta por acaso do filósofo sueco Nick Bostrom, e seu trabalho sobre super-inteligência e o avanço da inteligência artificial, que mudou tudo isso. “Todos nós ouvimos a ideia de que um dia os computadores superarão a inteligência humana – eles dizem que isso pode acontecer nos próximos 10 anos”, diz Bellamy. “Mas o que eu não sabia era que, daqui a 30 ou 40 anos, se a competição continuar acelerando, haverá um tempo em que seremos capazes de criar simulações realmente precisas das leis da física e até mesmo da natureza da evolução – na vanguarda da ciência, essas coisas já estão entrando nos reinos da simulação. É mais fácil estudar uma formação de galáxia simulada do que construir uma espaçonave que precisa voar por um milhão de anos-luz e ver uma delas acontecer”.

          Para um homem cuja imagem pública é tão baseada no sentimento antitecnologia, foi um surpreendente momento “eureka”. “Isso me deu essa sensação de: ‘Uau, imagine isso – isso pode ser tão empolgante’, diz Matt. “Talvez daqui a 20 ou 30 anos possamos explorar as leis da física e como a evolução funciona sem limitações no corpo humano, ou no tempo. Porque, obviamente, indo para o espaço, o corpo humano – nós não somos realmente feitos para isso. Mas eu acho que a maneira como vamos explorar o espaço é através da simulação”.

          A partir daí, Simulation Theory começou a tomar forma, a ideia de adotar a tecnologia infiltrando-se na música em si e até em seus estágios iniciais, o método de lançamento – originalmente, pretendia ser uma série de singles, explica Dom. Arctic Monkeys lançou o “livre de singles” Tranquility Base Hotel & Casino, e o Muse foi inspirado a abraçar o formato de álbum novamente, conscientes do fato de que os álbuns, em grande parte, facilitam as turnês.

          “Há uma geração mais velha de pessoas que se queixam de que artistas não recebem dinheiro suficiente – e isso é verdade, das gravações”, diz Dom. “Você tem que ser Ed Sheeran para obter algum dinheiro dos serviços de streaming, com bilhões de streams. Mas é um mundo diferente, que é fascinante, e eu gosto disso”.

 

“Nossa indústria, a indústria da música, foi uma das primeiras indústrias a ser atingida por essa palavra da moda, ‘automação’”, explica Matt. “Você ouve as pessoas falando sobre automação e inteligência artificial eliminando indústrias, empregos e assim por diante. Isso é algo que a indústria da música experimentou desde muito cedo, e agora está começando a atingir outras indústrias – desde a fabricação de carros até as decisões estratégicas militares. Está começando a se infiltrar e ameaçar muitos empregos. Eu acho que é por isso que muitos desses temas nos primeiros álbuns do Muse eram bastante negativos sobre tecnologia. Nós tivemos esse sentimento – trabalhando por anos tocando instrumentos, e então você vai a um festival e alguém apenas abre um laptop e aperta a barra de espaço, e eles são atração principal do festival. Eu acho que as pessoas vão começar a passar por isso em todos os tipos de indústrias. As pessoas que treinaram por anos como jornalistas e assim por diante, podem de repente encontrar uma AI (Inteligência Artificial) escrevendo artigos. É uma sensação muito chocante”.

 

          “Mesmo agora, posso abrir um laptop e criar o som de uma orquestra completa, como Hans Zimmer ou algo assim. Há duas maneiras de ver isso – é incrível e fortalecedor, como um indivíduo poder fazer isso. Mas, ao mesmo tempo, não estou empregando os 58 músicos que normalmente seriam obrigados a fazer isso”.

 

          Fora do estúdio, Muse começou a interagir mais com entretenimento tecnológico futurista, também. O próprio Bellamy comprou um visor de realidade virtual (VR), algo que “me trouxe de volta a uma época, acho que o final dos anos 80, quando eu era muito interessado em jogos”, diz. O vocalista lembrou que ele e seus colegas de banda se conectaram por causa de seu amor por jogos dos anos 80, e o ZX Spectrum que ele tinha. Isso fez sua mente voltar àquela década, e trilhas sonoras de filmes como The Thing, Aliens e Blade Runner começaram a inspirá-lo. “Algumas das trilhas desses filmes foram meu primeiro contato com sintetizadores”, explica, ressaltando a sensação de maravilha que as trilhas provocaram no jovem Bellamy, muito antes de passar noites em claro por causa de pesadelos com drones.

          “Então, parte do álbum foi um retorno à inocência deliberada de visões distópicas do futuro que existiam nos anos 80”. É uma linha seguida diretamente pela arte de capa do álbum – desenhada pelo artista Kyle Lambert, de Stranger Things, uma representação cheia de neon da própria banda.

 

          Obcecado com a ideia de escapismo e retorno a tempos mais simples, Bellamy pulou de cabeça (literalmente) em VR. De lá, ele quis mais, e encontrou sua próxima forma de fuga no Deserto de Nevada, onde frequentou o festival Burning Man do ano passado. O escapismo era viciante. “O que descobri nessas duas coisas é que pessoas geralmente são um pouco mais legais umas com as outras”, diz. “Pessoas são muito agradáveis se você remove a rotina das notícias, e no caso do Burning Man, remove a aplicação da lei e coisas do tipo. É incrível como pessoas são agradáveis umas com as outras em um mundo de fantasia, ou um mundo diferente deste aqui.”

          “É outro motivo que me interessou nessa ideia de simulação, nessa ideia de que talvez a realidade em que vivemos talvez não…” ele pausa, e continua com uma risada nervosa. “Talvez comecemos a criar realidades alternativas que sejam mais divertidas!”

          Simulation Theory, Matt faz questão de esclarecer, é “em alguns sentidos, nosso álbum menos político”. É um desvio conveniente, e que fala muito – quando seu álbum supostamente “menos político” contém faixas sobre “a ideia de que pensamentos são contagiosos” (Thought Contagion, naturalmente) e uma música que começa literalmente com “Pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-paganda / Pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-propa-gan-ganda / Propa-ganda , Propa-propa-gan-ganda / Pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-pro-ga-ga-ga-ga”, é razoável dizer que você se envolveu demais com política.

          Sua reserva em discutir assuntos atuais talvez seja compreensível. Ao longo dos últimos anos, Bellamy virou um tipo de amplificador político, cada opinião cortejando notícias e gritos de hipocrisia. No final de 2016, ele foi apontado como “pró-Brexit”, uma acusação que negou no Twitter, escrevendo “Só aceito #softbrexit mercado único e livre movimentação de pessoas”, e adicionou “SIM, livre para realizar acordos comerciais fora da União Europeia – SIM”. Mais atualmente, comparou a América de Trump – onde vive atualmente, em uma luxuosa mansão em Los Angeles – com a distópica obra de George Orwell 1984, e criticou política de partidos. Independentemente do aspecto escapista de Simulation Theory, o vocalista do Muse ainda é uma voz política.

 

Você foi citado recentemente dizendo que não acredita em política de partidos. Onde você se enxerga no espectro político agora?

Matt: “Em alguns sentidos as coisas não mudam há um tempo. Eu venho de uma região rural do país, e muitas pessoas no Ocidente, talvez no mundo em geral, sentem que essa centralização do governo em algum lugar cada vez mais distante de onde elas estão é algo que precisa ser parado. Infelizmente, criamos um jeito muito negativo de fazer isso. O populismo que está crescendo no Ocidente não é algo que eu gosto, especialmente não do jeito que está acontecendo. Mas minha posição é essencialmente a mesma.”

 

Qual é essa posição?

“Algumas pessoas querem ver uma reforma real das estruturas políticas em que vivemos nos últimos 100 anos. O Reino Unido não é muito democrático, com o chefe de Estado e os Lordes [equivalentes a senadores no Brasil] não sendo escolhidos por eleição. Acho que seria um bom começo. Mas um passo além disso é que a política de partidos, e a polarização entre dois partidos, está ficando velha. Acho que as pessoas querem ver algo diferente.”

 

E o que seria isso?

“Não sei. Acho que talvez representação proporcional seria melhor, ao contrário de eleger um único candidato que tiver mais votos. Não sei se existem maneiras de limitar o tamanho dos partidos – acho que seria algo bom. Coalizões de três ou quatro tipos de partido pode ser um bom método. Mas no final é difícil controlar partidos, porque eles são essencialmente grupos de pessoas que se reúnem e dizem ‘Vamos tentar dominar a Câmara dos Comuns [equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil], custe o que custar’. Mas acho que deve haver uma estrutura em algum lugar – a Suíça parece, para mim, o país mais democrático. Eles têm muitos referendos e são bem descentralizados. Então acho que é isso que as pessoas estão pedindo.

 

Você também aparentemente foi acusado de ser pró-Brexit?

“Sou definitivamente pró-reforma da União Europeia. Brexit é uma maneira feia de tentar algo nesse sentido. Não sou contra ou a favor do Brexit, na verdade. Ficar na UE significa que você aceita o status quo de uma estrutura de poder não-democrática. Então isso não funciona. O próprio Brexit – a ideia de se distanciar da Europa – não me interessa, porque acho que pensando nos direitos humanos, e na imigração, sou a favor da livre movimentação de pessoas. Também na questão da defesa – acho que existem muitas razões para nos unirmos com a Europa. Mas minha discordância com a UE é em campos como comércio. Então não perguntaram a pergunta que eu quero responder com um referendo, que é a reforma da UE.

 

Você acha que falta sutileza nesse debate?

“Se você fizer perguntas grandes, preto-no-branco, com grandes buracos de informação, você vai criar essa divisão irracional. Imagine se a UE, amanhã, disser ‘Vamos passar por uma reforma, vamos mudar – a comissão vai ser eleita, vamos nos focar nesses assuntos e os outros assuntos vão ser decididos pelos países”. Imagina esse tipo de reforma? Teria que acontecer um segundo referendo, porque seria uma UE diferente. Acho que é o tipo de caminho que a UE deve seguir, porque está correndo o risco de se perder no movimento populista que se espalha pela Europa. Acho que seria tão agradável se o establishment, ao invés de tentar nos derrubar para aceitarmos o status quo, reconhecesse que há um problema.

 

Você ainda se sente conectado às coisas em um nível populista, básico? Você está vivendo bem – faz parte de uma banda de rock bem grande.

“Obviamente, sou bem-sucedido e vivo um estilo de vida bem mais farto do que eu vivia quando era jovem. Mas estou em uma banda desde o ensino médio, em uma área bem rural em Devon, que não é uma cidade grande, com pessoas metropolitanas. Então acho que, por essa razão, esses fatores sempre nos fizeram sentir destacados do mainstream. Nunca fomos uma banda que alcança as paradas pop. Então acho que por várias razões ainda nos sentimos relevantes para falar desses assuntos.”

 

          Longe das luzes e grandes ideias de Muse como um conceito, porém, há um núcleo humano que os mantém unidos. Eles mantém a mesma formação desde que eram meninos de 15 anos de Devonshire, um ponto que Matt reforça com um uso repetido quase cômico da palavra “rural” ao longo de nossa conversa, quase ao ponto de lembrar o vídeo “These Strikes Are Wrong”, de Ed Miliband.

          É impossível negar o impacto que isso teve no Muse atual, porém. De brincadeiras maliciosas sobre óculos espelhados à risadinhas que se ouvia vindo de dentro do camarim, há um calor humano até em seus movimentos mais eficientes de banda grande. Enquanto os três andam pelo estúdio como uma máquina muito eficiente, fica claro que a companhia pelos últimos 25 anos não sobrecarregou o trio.

          “Nós fazemos o que amamos”, conta Chris. “Já tiveram muitas vezes em que estávamos em turnê e pensamos em tirar um ou dois anos de folga, mas acho que por mais que essa ideia pareça muito boa, quando você tira a folga, fica com muita saudade de tocar ao vivo.” Então nunca surge a vontade de ter uma agenda menos agitada? “Já discutimos algumas vezes sobre isso”, conta Chris, que foi hospitalizado no verão passado por causa de um problema crônico no quadril. “Eu e Matt temos filhos, e quando você fica velho, toda a parte de viajar fica mais cansativa. Depois de um tempo você deseja aquele tempo em casa, mas os momentos em que estamos no palco são a parte que adoramos fazer, e é difícil se afastar disso.”

          Mesmo a lesão– e a ameaça de uma substituição de quadril – não parece ter desanimado Chris. “Toda vez que tentamos tirar uma folga surge a oportunidade de fazer alguns shows, e pensamos ‘claro, por que não?’”, admite. Matt, por sua vez, está prestes a celebrar o segundo casamento com a modelo Elle Evans. Todos os três precisam considerar os filhos, também.

 

          Através de tudo – atrações principais em festivais todo final de semana, os palcos imensos com milhares de holofotes, o status improvável de celebridades – os membros de Muse ainda se sentem como amigos de infância. Fãs antigos que estiverem ouvindo Simulation Theory podem achar que eles estão ficando loucos. Muito pelo contrário, fazem questão de ressaltar – estão melhores do que nunca.

          “Bizarro”, Dom resmunga quando relembro seus comentários sobre Sheeran, ressaltando que Muse não está tão longe do gigante ruivo em termos de tamanho. “Nos acostumamos a nos sentir como a maior banda desconhecida do mundo”, diz, “mas não pensamos assim atualmente porque já temos um bom tempo de carreira. Mas ainda temos muita sorte por ainda conseguirmos ser atração principal em festivais. E o fato de ainda estamos juntos! Tantas bandas não duram esse tempo todo, e sou grato por termos começado em um lugar tão pequeno, remoto e rural, em que nada acontecia.”

          Independentemente de onde estejam agora – todos entrando de volta nos supercarros com janelas escurecidas, a primeira de milhares de entrevistas para rádio dessa semana, com mais uma turnê mundial se aproximando – Simulation Theory trouxe de volta aquele espírito dos anos 80, o trio unido por videogames, sci-fi e curiosidade infantil, de um jeito que não acontecia há anos. “Pensando bem, quando tocamos no festival Reading, ou Glastonbury, acho que a razão para isso acontecer é a forma como começamos,” conta Dom. “É isso que nos uniu.”

 

 

Tradução: Marília Ramos e Lucas Martins

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Equipe MUSE BR

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