Tudo sobre a banda britânica Muse formada por Matt Bellamy, Dom Howard e Chris Wolstenholme.

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20 anos de Muse: Tradução do Interview Disc (2001)

Esta é uma transcrição da entrevista do CD promocional “Interview Disc” que circulava antes do lançamento de Origin of Symmetry, e ainda não havia sido publicada em português.

01 Introdução

02P Vocês algum dia levaram a música terrivelmente a sério?

02R Não inicialmente. Acho que quando começamos era mais pra ter algo pra fazer, a gente estava meio entediado e queria usar um monte de maquiagem e quebrar um monte de equipamentos. Entramos em uma competição de bandas locais só pra zoar com a cara de todas as outras bandas que tocariam lá. Apenas quando vencemos a competição foi que percebemos que precisávamos ganhar um dinheiro pra viver.

04P Vocês eram muito jovens quando se juntaram pela primeira vez, não eram?

04R Hmmm, sim. Uns 15 ou 16 com essa banda, nós três. Mas tocávamos em outras bandas antes disso, quando tínhamos uns 13. Quando eu tinha uns 14 ou 15, eu tocava em uma banda com o Matt, e o Chris também.

06P Quando vocês moravam em uma área relativamente rural, pensavam em sair dali pra ter condições melhores?

06R Acho que quando você nasce em uma cidade pequena dessas, obviamente não tem oportunidades lá e você sabe que não tem empregos que você realmente queira… A não ser que queira vender sorvete o resto da vida ou algo assim. Não havia oportunidades, então eu acho que você sabe que vai ter que se mudar, ou ir pra outro lugar alguma hora, fazer alguma coisa.

08P O que vocês lembram de seu primeiro show juntos??

08R Lembro que tinha um grupo de garotas com a gente, estávamos escrevendo e improvisando coisas estranhas, e elas decidiram que iam escolher nossas roupas e nos encher de maquiagem. Elas eram bem gostosas então deixamos. Aí todos nossos amigos meio que invadiram o palco e acabaram com o show.
Sim, foi no Battle of the Bands nosso primeiro show? A gente chegou no palco e só tinha algumas músicas, então tocamos todas que sabíamos.
Eu lembro quando anunciaram a banda vencedora, todo mundo vaiou porque não era um grande público, era tipo só a gente, um grupo de amigos e umas outras pessoas. Todas as bandas e seus pais e tal, e todos estavam “uuuuuu”, porque a gente era a única banda que não sabia tocar direito. Nessa época era mais a atitude e menos a música, pra falar a verdade.

10P Vocês lembram alguma das músicas que tocaram?

10R Sim, me lembro. “Small Minded” era uma, “Yellow Regret” (rindo), “A Turn to Stone”, “Weaking Walls” – meu deus! “Pointsless Loss” (rindo). Antes disso todas as bandas eram cover, quando a gente tinha uns 14 ou 15 anos.Mas foi aí que começamos a fazer nosso próprio material.
E o Battle of the Bands foi o primeiro show em que tocamos todas as nossas músicas, e eram todas um hard punk com um tipo de vocal leve por baixo. Acho que não funcionou bem! Na verdade eu acho que ainda fazemos isso.

12P Quando você diria que o Muse que conhecemos nasceu?

12R Acho que aconteceu depois que decidimos tocar a banda. Fomos pra faculdade tentar conseguir um diploma, fracassamos, caímos fora, o de sempre. Conseguimos emprego. Acho que nessa época a música era nossa única saída para qualquer coisa que seja, e levamos bem a sério. Acho que todos nós ficamos bem introvertidos nessa época que estávamos lançando nossos primeiros EPs e procurando contratos com gravadoras, essas coisas. Quando tocávamos em pequenos palcos, a gente se acostumou a tocar pra nós mesmos, estávamos acostumados com as pessoas não se importando muito ou não curtindo, porque lá em Devon as pessoas, na verdade, queriam ouvir cover dos anos 60. Começamos a ficar bem introvertidos no palco e por termos feitos muitos shows nos dois últimos anos, acho que nos soltamos um pouco, perdemos boa parte da inibição no palco e estamos mais relaxados. Não acho que temos isso como algo tão sério quanto antes. Mas é um approach muito melhor.

14P Quem deu a ideia do nome Muse?

14R A gente viu essa palavra em algum lugar. Não sabíamos o que significava na época em que formamos a banda. Eu saía com um grupo de garotas que faziam um tipo de música improvisada e estranha de bruxaria, ou algo nesses termos. E alguém comentou sobre um velho chamado Richard. Era tipo um riquinho que curtia muito música clássica, e ele disse que parecia que uma Musa havia passado pela cidade e havia inspirado todo mundo a tentar ser um pouco mais criativo. E acho que usamos esse nome porque eu achei que soaria bem.

16Q Vocês usaram uns nomes bem estranhos antes disso, não usaram?

16R Sim, “Gothic Plague”, “Carnage Mayhem”, esse era o melhor: “Carnage Mayhem”, “Rocket Baby Dolls”, “Fixed Penalty”, “Young Blood” (rindo). Esses eram diferentes nomes com nós e membros diferentes também. Não eramos só nós três. Nós três mesmo só chamamos Rocket Baby Dolls por um show, o Battle of the Bands, e então mudamos o nome rapidinho depois disso. Porque Rocket Baby Dolls” era tipo um apelido que inventamos e era tudo para aquele show do Battle of the Bands, particularmente.

18P Esse lineup, com três membros, é o ideal? Já houve alguma tentação para ter um quarto membro?

18R Na verdade, não. A gente sempre foi bem confortável com três e eu acho que sempre foi pra ser três. A gente percebeu no último ano, tocando ao vivo, que todo mundo tem que dar duro, e não tem mais ninguém pra gente se esconder atrás, como outro guitarrista ou tecladista ou quaisquer outros membros. Todo mundo tá bem ali na frente e você pode ouví-los. Tem muito mais espaço também. Não consigo imaginar como seria com quatro ou cinco pessoas. Três funcionam. Acho que a maior parte de nossas bandas favoritas eram trios. Como “Jimi Hendrix Experience”, “Cream”, “Nirvana”, bandas do tipo. “[The] Police”… Acho que um monte de nossas bandas favoritas são em três. Devo mencionar que quando começamos não éramos muito bons, mas eu acho que estamos ficando bem melhores agora e isso é algo que realmente deve acontecer quando se trata de um trio, porque não tem como se esconder atrás de ninguém.

20P Parece que nos Estados Unidos foi onde as coisas deram certo primeiro em termos de interesse por parte das gravadoras. Por que?

20R Na época, ninguém estava contratando muitas bandas na Inglaterra. Nós lançamos nossos EPs por conta própria e então fomos pros EUA para meio que nos encontrar com algumas empresas e tal. Tocamos no CMJ lá e fomos pra Los Angeles na semana seguinte e de alguma forma entramos em uma sala de ensaios e conhecemos Guy Oseary. Digo, ele faria um EP nosso, mas pensou que já tínhamos contrato. E ele descobriu que estávamos na cidade e nos pegou pra fazer um pequeno show pra ele, uns dois advogados e Steve Jones, guitarrista do Sex Pistols. Depois de umas duas músicas ele disse “sim, quero contratar vocês” e foi isso. E isso foi só nos EUA. Na época queríamos continuar com nossa própria marca no Reino Unido, porque na época qualquer coisa que tinha guitarra estava sendo desprezada porque o brit-pop estava morrendo. Todas essas gravadoras perderam uma fortuna e o pessoal da A&R estava sendo despedido em todo canto e era um momento um tanto depressivo para músicas com guitarra. Acho que foi o motivo de termos procurado outros lugares, o que a propósito acho que foi uma decisão bem inteligente, porque acho que se tivéssemos assinado contrato com alguma gravadora do Reino Unido a gente teria mais problemas. Temos a liberdade de fazer o que quisermos porque eles estão ali, mas não nos dizem o que a fazer. Apenas dão o dinheiro e fazemos o que quisermos.

22P A experiência de ir pros EUA pela primeira vez e dar amostras de show foi uma experiência “abridora de olhos” ?

22R Foi meio chocante porque estávamos sem contrato e apenas trabalhando, fazendo pinturas, decorações, empregos de merda, e então de repente a gente estava em voos de primeira classe, Limousines e participando de cerimônias e festas do Oscar em Los Angeles. Foi uma experiência meio surreal e nesse ponto pensamos que éramos pop stars por um segundo! Foi bem divertido e de repente percebemos que tínhamos que voltar pros nossos empregos e logo vimos que tínhamos um longo caminho pela frente. Mas acho que percebemos que é assim mesmo, é assim que eles tratam todo mundo quando estão tentando impressionar. Sim, foi bem estranho porque experimentamos como é estar no topo bem no começo e depois tivemos de começar do zero, de novo. Mas foi bom, foi divertido.

24P Depois de assinar com a Maverick, aposto que voltaram pra casa e todos seus amigos pensaram que vocês conheceram a Madonna…

24R Sim, a gente meio que ouve essa pergunta, e a resposta é “não, não a conhecemos”. O principal motivo é que ela tem um parceiro e o parceiro é o cara que comanda a empresa e ela…ela não está presente, na verdade. Acho que ela tá muito ocupada fazendo as próprias coisas.

26P É bem estranho, porque parece que vocês assinam contratos diferentes em lugares diferentes. Foram feitos mais ou menos da mesma forma, ou existem diferentes histórias para contratos diferentes?

26R Porque assinamos com a Maverick primeiro, assim que estava tudo certo, aí sim foi que começamos a procurar outros lugares e meio que foi acontecendo rápido desde então. Aí acho que conseguimos contrato na França ou algo assim, um na Alemanha e depois no Reino Unido. É estranho com a Maverick porque pedimos a eles especificamente para fazer apenas nos EUA, porque não queríamos uma empresa americana pro Reino Unido. E por terem concordado nisso eu acho isso nos colocou em uma posição onde podíamos escolher todas as nossas empresas independentes favoritas, como uma empresa Belga, que lançou o “Soulwax”, e uma empresa japonesa que tinha uma banda que conhecíamos e tal. Todas as empresas com quem estamos envolvidos são independentes e a gente sempre conhecem bem as pessoas. Não há nenhum tipo de atmosfera corporativa em nenhuma das empresas com quem trabalhamos.

28P Mas não fica mais complicado conhecendo as pessoas envolvidas?

28R Ah, claro que fica meio complicado. Já foi assim no passado mas agora tudo está se acertando porque na verdade agora é tudo novo. Não sei se esse tipo de coisa já foi feita no passado, mas de qualquer forma, geralmente é caótico, e quem sabe talvez fique com aquele formato estranho, parecendo uma batata, não sei, desde que funcione bem. Eu acho. Mas sim, sei o que você quer dizer, é difícil relaxar porque é muita coisa acontecendo e é tudo muito caótico e nós nem sabemos o que está acontecendo. Vamos processar alguém dentro de uns quatro anos. (risada)

30P Deve ser um inferno fazer as agendas…

Sim. Agora está um pouco mais fácil porque na última vez que viemos pra lançar um single aqui, alguns lugares não tinham contrato, e por algum motivo tava tudo sendo lançado em datas e ordens diferentes em países diferentes. Mas é um pouco mais fácil agora porque conseguimos contrato em todo lugar. Desde o começo, o primeiro single, vai ser tudo lançado ao mesmo tempo. Bem, não nos EUA, não sabemos quando vamos lançar aqui, então é todo lugar, menos aqui.

32P Quão importante foi fazer esses dois EPs independents antes de ir pro estúdio gravar o álbum?

32R Eu acho que é uma coisa boa pra qualquer banda fazer. Mostra que você fará sozinho se mais ninguém vier pra ajudar, você tem culhões pra tentar sozinho. E nós estávamos totalmente focados em tentar fazer isso, juntando nosso dinheiro para alguns EPs e tentando vender ele nos shows e tal. Eu teria continuado assim com prazer, acho que nos deu a primeira chance em um estúdio decente pra ir e gravar.

34P Olhando pra trás agora, você os vê como “demos magníficos” ou “lançamentos decentes”?

34R Acho que o primeiro foi um demo magnífico, o segundo já não tenho certeza. Ambos são limitados porque não éramos tão conhecidos e não sabíamos que provavelmente venderíamos mais que 1000, de qualquer forma, e por isso são limitados. Não porque na época a gente batalhou muito pra vender 240 e batalhamos muito inicialmente. Mas aí conseguimos aparecer em umas rádios aqui e ali, e isso meio que ajuda. Na época eram lançamentos decentes, e também quando você consegue um bom tempo pra entrar o estúdio e produzir um álbum completo, e aí você olha pra trás, os vê apenas como demos se comparado ao material do álbum. Se continuássemos daquele jeito, provavelmente teríamos ficado nos mesmos termos e fazendo gravações de baixo investimento.

36P Eu tenho pra mim que você gostou de trabalhar com John Leckie no Showbiz, porque você está trabalhando com ele de novo…

36R O motivo de [trabalhar com] John Leckie é que na primeira vez não trabalhávamos só com ele. Tinha outra pessoa que produziu os três primeiros pedaços com a gente. Era um tipo de co-produção entre esse cara e a gente, e nunca ficamos totalmente sozinhos com Joh Leckie no estúdio. Tinha sempre esse cara ou outra pessoa, e a gente queria ficar mais íntimo do John Leckie. No entanto, outro grande motivo é porque estamos mudando nosso som um pouco, e nós mesmos mudamos um pouco. Não é nada radical, não vamos ressurgir como um tipo de banda eletrônica mas eu quero que as pessoas saibam que as mudanças vieram da gente. Às vezes você vai e faz com um produtor diferente e as pessoas pensam: “Oh, eles mudaram e foi por isso e aquilo”. Já fizemos material com Dave Bottrill que é um cara diferente; a gente queria fazer só Plug In Baby com ele, porque ele era o único disponível no momento. Mas aí conseguimos uma semana extra em estúdio e acabamos fazendo umas quatro músicas com Dave Bottrill, que pensamos que seriam apenas demos e ideias pro álbum. Mas acho que essas músicas vão acabar entrando pro álbum e também o resto, que fizemnos com John Leckie. Então é quase idêntico ao primeiro álbum…estou falando da produção (rindo). Quero dizer, o primeiro álbum foi tipo, você sabe, fizemos quatro ou cinco músicas com a mesma pessoa e meio que terminamos e arredondamos com John Leckie, meio parecido com o que fazemos agora, mesmo que a música seja diferente.

38P  Obviamente, o Dave Bottrill já fez um monte de coisa no mundo do rock. Vocês estão testando suas credenciais rock n’ roll?

38R Acho que nesse álbum tem umas coisas que são mais pesadas. É bem mais que no último álbum. Mais parecido com o que vivemos, mas parecido com um trio.
E acho que o nível de musicalidade é bem melhor do que no primeiro álbum. Em outras palavras você não precisa esconder as coisas por baixo de multicamadas, sabe, podemos simplesmente ser mais e dizer que é como soamos como músicos. Mas sim, eu diria que tem mais rock ‘n roll nesse álbum do que no último. Soa mais cru.

40P Penso que, com o segundo álbum, vocês estão começando do zero. O primeiro era um conjunto de materiais que foram construindo ao longo de um período de tempo. Agora vocês tem que, de fato, escrever um álbum…

40R Sim, e tudo. Ainda que tenhamos umas 40 músicas ou por aí, que são meio antigas, de antes do Showbiz, todas músicas músicas nesse álbum foram escritas pra ele, ou seja, são novas, então sim.

42P Não havia tão somente produtores diferentes e algumas produções feitas por vocês mesmo, mas também lugares diferentes de gravação. Alguns interessantes, inclusive…

42R É sempre uma coisa boa a se fazer; não ficar no mesmo lugar por muito tempo, passar umas semanas em outro lugar, e depois em outro lugar. Algumas bandas que fazem diferente ficam seis semanas no mesmo lugar. Mas acho que com a gente, é bom ir por aí e experimentar o contraste de lugares diferentes. E também a gente não vai pro estúdio trabalhar ou escrever novas músicas; isso a gente faz sozinhos, em nossos ensaios. Então só agendamos estúdio quando temos realmente algo pronto pra fazer. Um monte de bandas, não sei bem como fazem, elas entram no estúdio por meses e meses, e isso deve custar milhares e milhares. Eu não sei o que é, mas a gente não pode arcar com isso! Então fomos ao estúdio Real Works, que é um ótimo lugar em Bach, na verdade é um estúdio bem grande. Quisemos ir lá, para preparar os equipamentos como se fosse ao vivo, e estivemos lá por umas três semanas e fizemos umas nove músicas que não estão terminadas, e estamos bem no meio do processo agora. Semana que vem vamos a um estúdio em Londres, o que vai ser bom. É um que fica em Richmond, perto do rio Tâmisa, cujo dono é o Pink Floyd, e eles normalmente não deixam as pessoas usarem ele, mas John Leckie trabalhou com eles, então ele conseguiu uma exceção e entramos. Tem uma história estranha por trás. Acho que compraram porque ouviram dizer que Charlie Chaplin costumava fazer altas festas lá quando vinha, então a gente vai tentar invocar uns fantasmas ou algo do tipo.

44P Durante a turnê do ano passado, vocês estiveram com o Foo Fighters e o Chili Peppers. Como foi?

44R Grande! (risada) Foi realmente muito bom. Digo, foi meio chocante quando entramos naquela turnê, sério, mas foram apenas algumas arenas enormes com vinte mil pessoas toda noite. Então era meio assustador a primeira vez que subimos no palco, mas acabamos nos acostumando. Estávamos meio incertos como como nos apresentar quando subimos no palco, eu acho. No fim a gente entrou de cabeça e começou a ficar mais aberto na maneira em que nos apresentávamos.

46P Aposto que se sentiram verdadeiros rockstars fazendo algo desse tipo…

46P Pois é. Tivemos de sair de nós. Não dá pra se esconder na frente de 25 mil pessoas,e eram os maiores shows que tínhamos feitos até aquele ponto, porque foi antes de tocarmos em qualquer festival. Portanto acho que foi uma coisa boa, nos preparou pros festivais; terminamos fazendo 50 festivais ano passado. Acho que o maior show que fizemos antes de tocar com Chili Peppers foi com mais ou menos mil pessoas. Mas de repente ver uma multidão de pessoas daquele jeito, a primeira vez foi em Paris e eu lembro que estava tão chocado com a quantidade de pessoas, que esqueci como tocava. Estava tão mais interessado em tentar absorver a vista que estava tendo problemas em fazer alguns dos acordes. Mas acho que depois do terceiro show, cada um de nós se acostumou com isso. E quando estávamos de volta pra tocar em lugares pequenos de novo, ficamos mais enérgicos, e como passamos por shows maiores, isso nos ajudou.

48P Vocês se deram bem com as bandas?

48R Sim, eram todos caras realmente legais e relaxados. Foi uma turnê bem divertida, cervejas e tal. Sim, todos os caras do Foo Fighters são legais. Chaz (sic) é um cara muito bom do Chili Peppers, é bem sociável, especialmente no palco, com as bandas. A maioria das bandas estão assistindo umas às outras e meio que interagindo de leve com as outras bandas enquanto elas tocam. Uma coisa que dava pra perceber era a importância de ter um momento de descontração depois do show e fesejar e relaxar um pouco mais. Acho que se você faz um show toda noite em uma nova cidade todos os dias, e digamos que você faça o show e vá pro hotel, depois de um momento acho que você fica um pouco desconectado do seu público. Acho que é bom sair com eles ou fazer uma festa ou apenas arrumar umas pessoas, ir pra algum lugar e ficar louco. Você se sente mais conectado com o lugar e sente que experienciou algo válido ali, e isso torna toda a experiência de fazer uma turnê muito mais prazerosa.

50P E aí, como foi?

50R Foi tranquilo! (risada) Éramos os primeiros no palco, então chegávamos bem cedo, e às vezes tinha pessoas entrando enquanto tocávamos. Algumas vezes, em alguns shows, as pessoas caíam fora, e às vezes assistiam, nos observando, mas obviamente por sermos a banda de abertura, todo mundo esperava pelo Foo Fighters e o Chili Peppers. Meio que nos fez perceber que precisamos fazer muitos shows por lá, o que não fizemos muito – foi uma turnê de apenas três ou quatro semanas. Fizemos alguns shows com eles na Europa. Acho que eram os melhores; aquele em Paris com o Foo Fighters, que foi onde todo mundo entrou meio que num êxtase mental e a gente sentiu que poderia ser um show nosso já. E aquilo foi bem estranho.

52P Rock n’ Roll parece ser a sensação do momento. Você se sente como parte de algum tipo de cena?

52R Acho que o Rock ou Metal estão bem evidentes, mas no momento dominados pelos americanos. Acho que falta alma. Eu gosto bastante das coisas que tem surgido, mas acho que precisa ter mais rock desse país ou da Europa que quebre paradigmas. É o que estamos fazendo, na verdade. Estamos meio que tentando mostrar que as pessoas nesse país gostam desse tipo de música, e gostam de tocar esse tipo de música. Não precisa sempre ser americano.

54P Você acha que vocês tem um som particularmente inglês?

54R Sim, acho que soamos ingleses. Existem muitas bandas dizendo que são de outros países, um monte de bandas de rock do Reino Unido ou bandas de metal estão obviamente soando como se fossem americanos ou algo do tipo. Não acho que soamos parecido com nenhuma banda inglesa da última década, mas acho que dá pra comparar com bandas como The Police ou algo assim (risada). Tenho certeza de há bandas no passado, na década de setenta talvez. Acho que um monte de bandas na década passada, nos anos noventa, as bandas inglesas, eram meio peculiares, um tanto obscuras, meio inglesas, esse tipo de coisa. E não é o tipo de coisa que eu me identifico. Eu sou mais do tipo de música que tem uma influência global. Mas eu acho, bem, pra mim a gente soa bem como uma banda do Reino Unido, sim.

56P Vocês sempre chegaram cedo nos festivais que fizeram ano passado. Mas um em particular – ‘T in the Park’ na Escócia, vocês deram uma atrasada, né? O que houve?

56R Onde estávamos no dia anterior? Paris? Não…Noruega? Não, era Paris porque minha pedaleira tinha sumido. O dia começou muito ruim. A gente tava no aeroporto e alguém ligou e disse “acabamos de encontrar uma pedaleira” (no palco do show que fizemos na noite anterior) “com seu nome nela”. Então o dia começou assim, e nosso avião atrasou, e o nosso administrador teve que ficar em Paris para pegar a pedaleira de volta, e acabamos voando pra Londres e perdemos o voo. Sim, foi terrível! Perdemos o voo que nos levaria pra Escócia, e não tínhamos nenhum administrador ou qualquer pessoa pra resolver as coisas, e a gente ficou tipo correndo pra lá e pra cá, eu em uma mesa, ele em outra, e ele mexendo com as bagagens. Eu tinha que falar com o Dom, mas não tinha como porque não podia deixar aquela mulher sozinha na mesa. Aí eu perdi outro voo porque tinha ido procurar o  Dom (rindo), aí chegamos um minuto antes da hora de entrar no palco. Mas nessa altura do campeonato, acho que o promotor disse que era tarde demais e acabou colocando a gente pra tocar ao mesmo tempo que o Travis (rindo).

58P A plateia dos festivais são mais ou menos a mesma coisa em todo lugar ?

58R Nos festivais que tocamos na França, elas eram bem variadas porque tinha alguns festivais onde éramos a única banda de rock e tinha um monte de música accapella e bandas de jazz. Então era uma mistura, mas gente aberta pra ouvir de tudo. Alemanha sempre foi muito bom. É bem hardcore, as pessoas pulando pra lá e pra cá, meio violento, mas não violento, se é que você me entende (rindo).
Acho que meu festival favorito foi na França, porque, como o Dom dizia, a mistura de estilos musicais era mesmo diferente. E é o tipo de festival onde é muito prazeroso descer lá e assistir outras bandas porque você acaba vendo coisa que nunca viu antes, pois depois de um tempo você sempre acaba vendo as mesmas bandas. Mas então, fizemos quatro shows em seguida com Limp Bizkit e Deftones, e acho que uns dois com o Rage Agains the Machine e a gente tocava no mesmo palco que bandas como essas e tal. Todos no sul da Europa e eu acho que teve um em Portugal ou algo assim, talvez Itália. Acho que era Itália, mesmo; e lá tinha 60 mil pessoas e a gente tinha que abrir o palco antes dos Deftones, Limp Bizkit e obviamente a plateia estava a postos e não nos conhecia bem. A gente só tocou o set mais completo que podíamos e o festival veio ao chão. Lembro de toda aquela poeira e fumaça porque tava muito seco, e foi muito estranho porque a gente tocou 10 da manhã e todo mundo ficou louco. Eles levantaram da cama pra ver a gente 10 da manhã, e a gente tava tocando no pé da montanha, a única montanha no Japão, o monte Fuji. E a gente via que era um cenário realmente fascinante e tal, mas eu tava meio cansado na hora e não conseguia acreditar, tava quente como o inferno, tipo um bilhão de graus, e aí a gente subiu no palco e eu nem pensei que teria alguém lá, mas tinha aquela multidão de roupas brancas por todo lado. Deviam estar lá desde as 7 da manhã (rindo). Todos os shows no Japão são bem cedo, mesmo quando a turnê é nossa, e todos os shows terminam 11 da noite em ponto. É bem estranho.

60P Obviamente, era uma agenda bem cansativa como você disse. Já esqueceu onde estava?

60R Nos festivais, sim, algumas vezes em turnê. Lembro quando voltamos e fizemos a turnê no Reino Unido em maio e eu pensei que tava na Alemanha, e estávamos em Norwich (rindo). Alguém veio fazer uma entrevista, acho que era o Select ou algo assim e eles entraram pra entrevistar e eu esperava um sotaque alemão porque tínhamos acabado de vir da Alemanha. Quando tocamos em um festival na França, houve uma aglomeração no ônibus depois, aí ficamos bebendo com algumas pessoas e rolou meio que uma semi-festa no ônibus. Todos caímos no sono, seguimos viagem e acordamos na Espanha e tinha dois estranhos no ônibus sem passaporte, e esquecemos que estávamos na Espanha. Não tenho certeza de quem convidou eles, não lembro se fui eu (rindo). Eu nego que tinha sido eu, mas tava tão bêbado que não lembro. Mas lembro que foi bem estranho ter duas pessoas estranhas ali sem passaporte. A gente teve que levar eles pra casa e meio que passar eles pela fronteira clandestinamente.

62P como se sente no final de uma turnê? Tem aquela sensação de alívio ou não vê a hora de volta pra estrada de novo?

62R O fim de turnê só aconteceu uma vez! (rindo) A gente só teve uns três ou quatro dias de folga durante a turnê, então desde que o álbum saiu, parece uma turnê muito longa. Sem contar as duas semanas que tivemos de folga pro natal. Quando acabou, acho que foi bom dar uma descansada e relaxar. Fui nadar com uns tubarões, vi um tubarão-martelo, porque eu faço mergulho Scuba. Fui pras Maldivas e foi legal fazer algo diferente. Mas então passa um tempinho e dá aquela vontade de voltar porque eu amo fazer isso. Tudo muda toda hora e isso é uma linda maneira de existir.

64P Tenho pra mim que o próximo álbum vai levar vocês pelo mundo todo de novo…

64R Acho que sim, provavelmente. Ainda tem alguns lugares que nunca estivemos, apenas um ou dois! (rindo) Vamos começar fazendo tour por alguns lugares como os países mediterrâneos onde não estivemos antes. Vai ser bom ir pra lá, e tomara que dê pra ir pra América do Sul e África do Sul. Nunca fui pra lá. Acho que por hora estamos fazendo uma grande turnê na Europa, que é a maior que já fizemos na vida. Mas depois disso não há planos definidos. Acho que vamos ser mais seletivos com os festivais desta vez, vamos tocar provavelmente em só um festival no Reino Unido e no próximo ano vamos provavelmente tocar em um monte de novo. Se conseguirmos!

66P Acho que vocês estão quase vivendo um sonh rock’n’roll. É difícil separar realidade da fantasia, às vezes?

66R Ehhh… É difícil separar realidade da fantasia de qualquer forma; se a realidade é arrumar um emprego, um carro e se casar, pra mim isso é uma fantasia (rindo). Na verdade, um pesadelo (rindo). Não tenho certeza, depende da sua definição de realidade. Quando você perambula por aí, o tempo todo em hotel, e vai de um lugar pra outro, parece que fica meio nublado, você não sabe onde está e não se sente muito conectado. Quando gasta um tempinho pelo menos dando uma olhada pela cidade, conhece pessoas e tal, você fica com um senso de realidade o suficiente pra ficar na real. Desde que fique longe das drogas, acho que tá tudo bem.

68P O fato de se conhecerem há tanto tempo ajuda a manter os pés no chão?

68R Acho que provavelmente sim. Acho que ajuda a manter os pés no chão no sentido de que nenhum de nós jamais saiu do eixo. Acho que se qualquer um de nós começar a fazer algo e percebermos, sabe, algo que possa prejudicar a gente ou algo assim, obviamente, por nos conhecermos há tanto tempo, vai ser normal mostrar o problema um ao outro. Porque pelo jeito que fazemos música, todos meio que entendemos como tocamos e como reagimos a diferentes situações no palco e no estúdio. Sim, acho que só ajuda. A gente já passou por todo tipo de merda juntos. O fato de termos chegados até aqui significa que já dá pra saber que nada pode nos quebrar.

70P Qual foi a coisa mais rock’n’roll que já fizeram como banda? O quão Spinal Tap já ficou?

70R Oh, Spinal Tap! (rindo) Acho que a coisa mais Spinal Tap que já aconteceu foi quando eu inventei um show grande com luzes e esses cones enormes brancos que desciam, e eu estaria dentro de um deles brincando de fazer sombras! (rindo) E todo mundo disse “Fácil – isso é meio triste” (rindo). Eu realmente pensei que era um número de gênio, com vapor e iluminação, essa coisa clássica. E todo mundo ali na frente tava tipo “que punheteiro exibido”. Percebi que deu errado e no fim do show eu entrei dentro de um cone e destruí ele. Foi no show em Astoria? Por fim eu tava dentro do cone e não conseguia sair. Era fim de turnê, tudo acontecendo e eu ali dentro e acabei ficando preso e tive que ficar no palco. O show terminou, as luzes acenderam e eu tava preso no palco. (rindo) Até que todo mundo saiu do local e eu ainda tava lá. Na verdade eu rolei e me escondi embaixo da bateria dentro de um cone. Isso foi o mais próximo que já cheguei de Spinal Tap.

Fonte:  http://www.musewiki.org/Interview_disc_transcript

Tradução: Júlio Leite

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