Tudo sobre a banda britânica Muse formada por Matt Bellamy, Dom Howard e Chris Wolstenholme.

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[ENTREVISTA] O LENDÁRIO LANÇAMENTO DO SINGLE ‘MUSCLE MUSEUM’

ROCK’S BACKPAGES RESSUSCITOU A ENTREVISTA, DE JANEIRO DE 2000

 

Às vésperas do lançamento do novo álbum, Drones, o jornal inglês The Guardian publicou uma entrevista de 15 anos atrás, para relembrar histórias do início da banda. Na época, os meninos estavam promovendo seu terceiro single, Muscle Museum. A matéria traduzida:
 
POR STEPHEN DALTON

 

 

Chris Wolstenholme, Matt Bellamy e Dominic Howard. Foto: John Eder/Mushroom Records


 

Dá pra se sentir bem solitário nas cidadezinhas longínquas e desbotadas dos resorts de Devon. Principalmente no inverno, quando o mar vira um ninho cinza de tempestades e o céu um exemplar implacável de melancolia wagneriana. Para um trio de rock jovem e ambicioso, não há muitas alternativas, além de fazer as malas e se perder em Londres, ou ficar para trás e derramar até a última gota de suas almas frustradas e sufocadas em épicos do doom-rock de partir o coração.
 
Matthew Bellamy, de 21 anos, guitarrista e vocalista do Muse, cresceu bem longe dos gostos e tendências da metrópole, na pacata cidade costeira de Teignmouth. Ele aprendeu sozinho a tocar guitarra e piano escutando Robert Johnson e Ray Charles, até se graduar para bandas pós-punk mais barulhentas, como Sonic Youth e Dinosaur Jr. Todas essas influências podem ser ouvidas na tradição distorcida do Muse, que funde melodias fortes, de uma tristeza dolorida, com a turbulência e o tumulto das guitarras. Nada remotamente próximo aos hinos trance de Ibiza.
 
 

 
 
“Não que eu não goste desse tipo de música”, pondera Bellamy. “Eu ia aos shows do Orb e Orbital toda vez que eles vinham, e vi o Aphex Twin umas duas vezes. Eu curtia pra caramba essas coisas, mas não significava muito pra mim. Fazia seu efeito quando eu estava enchendo a cara na balada, mas em casa não era a mesma coisa.”
 
Depois de Bellamy ter roubado o baixista Dominic Howard e o baterista Chris Wolstenholme (sic) de bandas rivais na escola em que estudavam, o Muse fez a sua estréia ao vivo aos 16 anos, num evento local chamado Battle of the Bands. Eles usaram maquiagem, destruíram os instrumentos, provocaram uma invasão do palco e ganharam facilmente, para sua própria surpresa. 
 
“Desde então foi bastante ladeira abaixo”, suspira Bellamy. “Mesmo agora continuo pensando que foi o ponto alto da carreira da banda. Aquele show foi mágico, e nos inspirou por anos e anos, só de lembrar como nos sentimos naquele dia. Levou anos pra conseguirmos sentir algo ao menos parecido com o que sentimos naquele dia.”
 
Depois de fechar contrato com uma produtora local, o Muse partiu em busca das gravadoras numa época de pouco movimento na indústria musical britânica. Terminada a onda do Britpop, foi um período de cortar custos e dispensar funcionários. Consequentemente, o trio assinou com a australiana Mushroom no Reino Unido e com a Maverick de Madonna nos Estados Unidos. Isso garante tratamento diferenciado na América, onde contratos locais tendem a ganhar prioridade.
 
Com seu álbum de estréia, Showbiz, sendo lançado nos dois lados do Atlântico, o Muse está com shows agendados pelos próximos seis meses. O disco é incrivelmente seguro de si para um grupo iniciante, cheio de arremates épicos no estilo de Nirvana, e de letras perturbadoras que fazem lembrar Radiohead. Mas não é fácil de escutar. 
 
“Esse é o tipo de coisa que costumava me fazer sentir melhor”, Bellamy insiste. “Pessoas como Nick Cave – aquela depressão ridiculamente exagerada. Eu acho interessante por causa da sensação de que alguém está sentindo o que você está sentindo e colocando isso numa música. Expressar alegria intensa também tem seu valor, o que importa é expressar sua essência na música. Mas eu acho que o que mais motiva as pessoas a se expressar é a depressão, a tristeza. Com certeza há situações em que nossa música não se encaixa. Certamente que é boa para as pessoas assistirem ao vivo, mas não sei se caberia numa festa.”
 

“Acho que o que mais motiva as pessoas a se expressar é a depressão, a tristeza.”


Bellamy se esquiva de buscar interpretações para os sentimentos “esquizofrênicos” em suas letras, mas vê a separação dos pais aos 13 anos e perdas recentes na família de membros da banda como verdadeiros sinais de trauma. 
 
“Eu não diria que somos playboys”, ele alega. “Não somos moleques mimados que tem tudo e ficam se queixando de coisas sem importância. Nós temos substância, mas não vamos ficar nos explicando para provar isso.”
 
O novo single, Muscle Museum, tem também sua porção de amargura e gritos angustiados, mas com um toque diferente do Mediterrâneo. Ela lembra, nas palavras de Bellamy, “um casamento grego”, provavelmente porque foi escrita durante uma viagem de um mês em uma ilha do mar Egeu.
 
“É que eu acho aquele tipo de música realmente apaixonante. Tem tanto sentimento e leveza. Passei momentos importantes da minha vida na Espanha e na Grécia, e muitas coisas significativas aconteceram lá – paixões, coisas assim. Então talvez o clima de lá tenha ficado em mim de alguma forma.”
 
A canção em si é uma brisa exótica, sensual, de uma paixão extremamente não-britânica. “É sobre o conflito entre diferentes partes do nosso ser – o corpo, a alma, sei lá – sobre como uma parte não deixa a outra fazer o que quer fazer”, Bellamy explica. “É sobre o dilema de não saber o que se quer. Não só em relacionamentos, isso poderia servir para a banda também, sobre como existem pessoas que insistem em te chutar mesmo quando você já está no chão.”
 
É de uma beleza barbaramente melancólica a poesia que esses três meninos do interior criaram.
 
Hora de se render ao Muse.”

Written By

Super Drone da Tradução, nerd e fã incondicional.

Comments: 2

  • Mariana Rocha

    3 de abril de 2015
    reply

    Incrível a matéria. É tão intrigante olhar para o passado e ver um pouco como q banda começou, como eles eram, e também ver que eles não mudaram sua essência ao longo desses 20 anos de carreira, mesmo que muitas outras coisas tenham mudado.

  • Riccelli Marques

    19 de outubro de 2015
    reply

    Grande achado essa entrevista!

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